Enquanto
olhava fixamente para o exercício de chinês, escrito em letras latinas sobre o
meu caderno quadriculado, pensei se eu não era algum tipo de idiota que gostava
de arrumar problemas. Último ano. Último ano com cadeiras dificílimas e eu
ainda tinha a capacidade de inventar aprender uma língua asiática. De que tipo
de retardamento mental eu sofria?
Soltei
um suspiro, deixando a caneta de lado, procurando me distrair com qualquer
coisa – até com o poster de Vampire Knight, comprado no Iberanime, no último
ano letivo. Os sons pareciam coisas de outra galáxia; depois de um tempo, tudo
o que conseguia era rir da minha própria incapacidade. Bem, pelo menos os
caracteres não são um grande problema – depois de japonês, tudo se tornou bem
mais fácil. Mas escrever numa língua é só escrever numa outra língua. No fundo,
não aprendemos uma nova língua para sermos capazes de nos comunicar? E se eu
pronuncio cavalo ao invés de mãe, um pouco desnecessário é dizer que estou
encrencada.
Voltei
a observar o caderno. Isso não significava que não estivesse entusiasmada.
Verdade fosse dita, contava as horas para a aula de chinês. Era a aula mais
legal do dia, talvez até da semana. O meu desânimo era outro. Outro ano, último
ano. Sentia-me um pouco pressionada e perdida... assustada. Não que fosse
novidade eu ser um tanto quanto a scared cat. Não que fosse novidade eu
me sentir perdida.
De
qualquer forma, parecia ser diferente. O meu perdido de agora com os perdidos
de antes. Tinha consciência de que não era mais a mesma pessoa – uma jovem
entusiasmada de dezoito anos, em muitos aspectos tão ingénua. Alguém que tinha
muitos sonhos e esperanças... nem todos eles verosímeis. O eu que vivenciava
naquele momento – caderno de chinês sobre a secretária, poster de Vampire
Knight na parede – era um tanto quanto cru. Que julgava saber de tudo e nada ao
mesmo tempo. Que acreditava e desacreditava em tudo. Que se aborrecia com uma
facilidade tremenda... que sorria forçado, quase sempre. E que não sabia o que
esperar nem daquele ano, nem de ano nenhum.
Aprender
chinês... no fundo, isso não tinha sido uma tentativa de me animar um pouco? De
vivenciar algo novo? Sorri. Independentemente da resposta, eu continuava
encrencada, com um monte de coisas para estudar – não só chinês, obviamente –,
com uma vontade mínima para isso. Então, do nada. Aquela vontade de poder
escrever nem que fosse um artigo para o blog.
Não
passava de procrastinação. Escrever se tornara mecânico... não apenas um desejo
vindo de uma inspiração súbita. Quis parar por um momento, repetir qualquer
coisa que fazia há alguns anos. Editar imagens, ler fics, qualquer coisa que me
trouxesse de volta um sentimento bom – e não a indiferença, o cruel tanto faz
que me perseguia quase sempre.
Balancei
a cabeça, tentando dissipar o pensamento. Repetir não era bom, estava me
convencendo disso. Tentava crescer, me forçar a enxergar que já não era aquela
garota, que era uma adulta. Certas coisas já não se encaixavam. Provavelmente
era por isso que já não ia aos Companheiros – mesmo na minha cabeça isso
parecia impróprio, infantil.
Será
que eu não estava incomodada com o fato de ter crescido? Quem sabe não tivesse
a Síndrome do Peter Pan? Tanto faz. Abri a tampa do computador e liguei-o. Pus
Fischerspooner para tocar... depois de tentar ver alguns vídeos antigos de
Final Fantasy na tentativa de me sentir como antes. Que besteira. Até eu
sei que não existe antes. Ri ao me aperceber disso... e fiz uma careta. Droga.
Estou encrencada com a minha pronúncia.


