domingo, 1 de Dezembro de 2013

Insegurança




Dizem que a preguiça é a raiz de todos os males; mas, então, o que é a insegurança?

A ansiedade… o buraco no estômago. A imagem no espelho. As incógnitas.

A preguiça é a raiz de todos os males, o que é, então, a maldita insegurança?

O que são olhos nos olhos, palavras erradas, diálogos cruzados?

O que é o nó na garganta, as especulações, o que é o medo?

O que é o toque de mão, o sorriso quebrado, a indiferença?

Por quê a indiferença não é indiferente?

Por quê o som; o simples som machuca?

Por quê o frio; por quê o frio machuca?

Por quê a hesitação – estúpida hesitação – dilacera?

A ansiedade, a insegurança… quem inventou essa ridícula máxima?

Malditos, malditos, malditos!

Qual é a realidade?

Sentes-te importante?

Devias sentir?

Olhos nos olhos. Minta para mim, espelho.

Por favor… minta para mim.

quarta-feira, 16 de Outubro de 2013

Canudos

Não havia alegria. Não havia melancolia. Só ansiedade. Aquele último mês de julho, de estudos, noites sem dormir e falta de apetite. O último exame da licenciatura. E os nervos.


A incerteza era extrema. Mas havia outra coisa acima dela, acima dos nervos. A indiferença. Quando se tornara o sentimento protagonista? Diante do espelho, pensando nada. Vendo nada. Reconhecendo nada.


“Escreva muito. Escreve bem.”


Tinha sido isso que me levara até ali? Escrever? Quem eu era no princípio e quem eu era naquele momento, caneta na mão, folha de teste sobre a mesa, apontamentos de lado? Eu sabia quem eu era?


...


Mais duas semanas.


Daí, tudo termina e você tem um diploma. A ansiedade evapora subitamente, e a indiferença agora se apossa mais violentamente do seu corpo. Parabéns, um diploma. Guarde-o na gaveta, emoldure-o, se preferir. Três anos de suor e lágrimas, e tudo por um pedaço de papel. Que vida estranha.


E o que vem a seguir? Uma página do Word. Uma carta de motivação. O que escrever? O que você quer? Quem você é? As suas mãos tremem. Os pensamentos embaralham-se. O que você quer. Quem você é.


Mestrado. Tradução. Enviar.


E, de repente, setembro. Respostas. Recomeço.


Dois anos.


O relógio e o seu tique-taque.


De volta à FLUL.

sábado, 5 de Janeiro de 2013

Pronúncia



Enquanto olhava fixamente para o exercício de chinês, escrito em letras latinas sobre o meu caderno quadriculado, pensei se eu não era algum tipo de idiota que gostava de arrumar problemas. Último ano. Último ano com cadeiras dificílimas e eu ainda tinha a capacidade de inventar aprender uma língua asiática. De que tipo de retardamento mental eu sofria?

Soltei um suspiro, deixando a caneta de lado, procurando me distrair com qualquer coisa – até com o poster de Vampire Knight, comprado no Iberanime, no último ano letivo. Os sons pareciam coisas de outra galáxia; depois de um tempo, tudo o que conseguia era rir da minha própria incapacidade. Bem, pelo menos os caracteres não são um grande problema – depois de japonês, tudo se tornou bem mais fácil. Mas escrever numa língua é só escrever numa outra língua. No fundo, não aprendemos uma nova língua para sermos capazes de nos comunicar? E se eu pronuncio cavalo ao invés de mãe, um pouco desnecessário é dizer que estou encrencada.

Voltei a observar o caderno. Isso não significava que não estivesse entusiasmada. Verdade fosse dita, contava as horas para a aula de chinês. Era a aula mais legal do dia, talvez até da semana. O meu desânimo era outro. Outro ano, último ano. Sentia-me um pouco pressionada e perdida... assustada. Não que fosse novidade eu ser um tanto quanto a scared cat. Não que fosse novidade eu me sentir perdida.

De qualquer forma, parecia ser diferente. O meu perdido de agora com os perdidos de antes. Tinha consciência de que não era mais a mesma pessoa – uma jovem entusiasmada de dezoito anos, em muitos aspectos tão ingénua. Alguém que tinha muitos sonhos e esperanças... nem todos eles verosímeis. O eu que vivenciava naquele momento – caderno de chinês sobre a secretária, poster de Vampire Knight na parede – era um tanto quanto cru. Que julgava saber de tudo e nada ao mesmo tempo. Que acreditava e desacreditava em tudo. Que se aborrecia com uma facilidade tremenda... que sorria forçado, quase sempre. E que não sabia o que esperar nem daquele ano, nem de ano nenhum.

Aprender chinês... no fundo, isso não tinha sido uma tentativa de me animar um pouco? De vivenciar algo novo? Sorri. Independentemente da resposta, eu continuava encrencada, com um monte de coisas para estudar – não só chinês, obviamente –, com uma vontade mínima para isso. Então, do nada. Aquela vontade de poder escrever nem que fosse um artigo para o blog.
Não passava de procrastinação. Escrever se tornara mecânico... não apenas um desejo vindo de uma inspiração súbita. Quis parar por um momento, repetir qualquer coisa que fazia há alguns anos. Editar imagens, ler fics, qualquer coisa que me trouxesse de volta um sentimento bom – e não a indiferença, o cruel tanto faz que me perseguia quase sempre.

Balancei a cabeça, tentando dissipar o pensamento. Repetir não era bom, estava me convencendo disso. Tentava crescer, me forçar a enxergar que já não era aquela garota, que era uma adulta. Certas coisas já não se encaixavam. Provavelmente era por isso que já não ia aos Companheiros – mesmo na minha cabeça isso parecia impróprio, infantil.

Será que eu não estava incomodada com o fato de ter crescido? Quem sabe não tivesse a Síndrome do Peter Pan? Tanto faz. Abri a tampa do computador e liguei-o. Pus Fischerspooner para tocar... depois de tentar ver alguns vídeos antigos de Final Fantasy na tentativa de me sentir como antes. Que besteira. Até eu sei que não existe antes. Ri ao me aperceber disso... e fiz uma careta. Droga. Estou encrencada com a minha pronúncia.