Sábado, 5 de Janeiro de 2013

Pronúncia



Enquanto olhava fixamente para o exercício de chinês, escrito em letras latinas sobre o meu caderno quadriculado, pensei se eu não era algum tipo de idiota que gostava de arrumar problemas. Último ano. Último ano com cadeiras dificílimas e eu ainda tinha a capacidade de inventar aprender uma língua asiática. De que tipo de retardamento mental eu sofria?

Soltei um suspiro, deixando a caneta de lado, procurando me distrair com qualquer coisa – até com o poster de Vampire Knight, comprado no Iberanime, no último ano letivo. Os sons pareciam coisas de outra galáxia; depois de um tempo, tudo o que conseguia era rir da minha própria incapacidade. Bem, pelo menos os caracteres não são um grande problema – depois de japonês, tudo se tornou bem mais fácil. Mas escrever numa língua é só escrever numa outra língua. No fundo, não aprendemos uma nova língua para sermos capazes de nos comunicar? E se eu pronuncio cavalo ao invés de mãe, um pouco desnecessário é dizer que estou encrencada.

Voltei a observar o caderno. Isso não significava que não estivesse entusiasmada. Verdade fosse dita, contava as horas para a aula de chinês. Era a aula mais legal do dia, talvez até da semana. O meu desânimo era outro. Outro ano, último ano. Sentia-me um pouco pressionada e perdida... assustada. Não que fosse novidade eu ser um tanto quanto a scared cat. Não que fosse novidade eu me sentir perdida.

De qualquer forma, parecia ser diferente. O meu perdido de agora com os perdidos de antes. Tinha consciência de que não era mais a mesma pessoa – uma jovem entusiasmada de dezoito anos, em muitos aspectos tão ingénua. Alguém que tinha muitos sonhos e esperanças... nem todos eles verosímeis. O eu que vivenciava naquele momento – caderno de chinês sobre a secretária, poster de Vampire Knight na parede – era um tanto quanto cru. Que julgava saber de tudo e nada ao mesmo tempo. Que acreditava e desacreditava em tudo. Que se aborrecia com uma facilidade tremenda... que sorria forçado, quase sempre. E que não sabia o que esperar nem daquele ano, nem de ano nenhum.

Aprender chinês... no fundo, isso não tinha sido uma tentativa de me animar um pouco? De vivenciar algo novo? Sorri. Independentemente da resposta, eu continuava encrencada, com um monte de coisas para estudar – não só chinês, obviamente –, com uma vontade mínima para isso. Então, do nada. Aquela vontade de poder escrever nem que fosse um artigo para o blog.
Não passava de procrastinação. Escrever se tornara mecânico... não apenas um desejo vindo de uma inspiração súbita. Quis parar por um momento, repetir qualquer coisa que fazia há alguns anos. Editar imagens, ler fics, qualquer coisa que me trouxesse de volta um sentimento bom – e não a indiferença, o cruel tanto faz que me perseguia quase sempre.

Balancei a cabeça, tentando dissipar o pensamento. Repetir não era bom, estava me convencendo disso. Tentava crescer, me forçar a enxergar que já não era aquela garota, que era uma adulta. Certas coisas já não se encaixavam. Provavelmente era por isso que já não ia aos Companheiros – mesmo na minha cabeça isso parecia impróprio, infantil.

Será que eu não estava incomodada com o fato de ter crescido? Quem sabe não tivesse a Síndrome do Peter Pan? Tanto faz. Abri a tampa do computador e liguei-o. Pus Fischerspooner para tocar... depois de tentar ver alguns vídeos antigos de Final Fantasy na tentativa de me sentir como antes. Que besteira. Até eu sei que não existe antes. Ri ao me aperceber disso... e fiz uma careta. Droga. Estou encrencada com a minha pronúncia.

Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

Versão 2.0




Imagino se a vida é feita de versões. Como programas de computador. Imagino se essa é uma comparação precisa. Imagino se a cada virada de ano, tornamo-nos softwares mais enriquecidos, mais resistentes a vírus, mais rápidos e eficientes. Se largamos o nosso design antigo por um mais moderno e inovador. Ou se fazemos todas essas mudanças que são inevitáveis com o passar do tempo e nos tornamos exatamente o contrário – uma versão mais superficial e entupida de bugigangas. Talvez permaneçamos para sempre iguais… sempre na monotonia do constante até cairmos no esquecimento de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. 

Estou apenas devaneando, mas… Será que crescer não é, no fundo, recriarmo-nos constantemente, permanecendo de alguma forma fiel ao nosso eu original, ao final do dia? Evoluindo. Mas ainda sendo o mesmo. Mudando. Mas ainda tendo o mesmo nome… com um número diferente na frente.

Domingo, 5 de Agosto de 2012

Fillers literários entre outras coisas irritantes



Nunca considerei a série "Os Imortais" um bom tipo de literatura. É como Crepúsculo, tão vazio de conteúdo e lógica quanto. A autora simplesmente apega-se a essa ideia fixa e simples – eles são imortais, são apaixonados, e vivem a eternidade inteira tentando ter relações sexuais, sendo impedidos antes disso por razões mórbidas – e aplica-a na saga inteira, colocando, porém, alguns obstáculos aleatórios no meio, enrolando assim o leitor ainda mais do que a TV Tokyo enrola os espectadores com os fillers. Bem, os fillers, ao menos, acontecem somente no anime – não no mangá, onde a história flui. Na série Imortais, a impressão que se dá é de que além de a história não fluir como deveria, é que nem a autora sabe o que está escrevendo. Então, a impressão que se tem é que se está a ver uma interminável saga filler – e não um mangá original.

E isso ficou muito visível com o terceiro livro da série – Shadowland –, onde é impossível não perceber que foi um livro muitíssimo mal preparado. Suponho que a editora tenha dado pouco tempo para a autora escrever algo decente. A trama não desenvolve com naturalidade, muito pelo contrário, revolve em assuntos mal explicados e pouco desenvolvidos, metade do livro é sobre momentos desnecessários do namoro de Ever e Damien, e acaba abruptamente com uma cena em que Ever admite ter transformado Haven em uma imortal. O que deixa o leitor a pensar que a autora provavelmente quer tornar todo santo personagem em imortal também – já que o pseudo rival de Damien foi colocado na lista de seres eternos antes que completasse oitenta páginas na saga. Como não tinha ideias, assumo, limitou-se a escrever qualquer coisa, a seguir um molde clichê e sem sentido, mas que para qualquer pré-adolescente idiota, entretinha. Até porque nada vende mais do que sobrenatural e amor eterno. E, se na metade do livro joga-se um personagem fisicamente perfeito para rivalizar com o par romântico da protagonista – pronto, tem-se a receita de um Best seller moderno.

E eu não percebo. Que essas pessoas têm com os pseudo-rivais? Se não é para o personagem principal perder a virgindade com eles, ou ao menos passar um tempo realmente com eles, apaixonados por eles, faça-nos um favor e descarte-nos esse personagem já descartado. Ver esse tipo de situação nos livros é ainda mais enervante do que vê-lo em novelas coreanas, onde tudo é o cúmulo da insanidade mental.

Segundo, não é porque um livro fala sobre o sobrenatural que ele não deve ser verosímil. Não é porque as personagens são adolescentes que elas devem ser estúpidas. Haven, Miles, Ever e até o centenário Damien agem como se não tivessem nenhum tipo de discernimento. Mesmo para adolescentes existem coisas além de amor e romances – ao contrário do que prega o Crepúsculo e mesmo a série de Alyson.

E essa coisa de amor eterno – nem na ficção isso se compra. Por que não fazer um romance sólido, tempestuoso, terra-a-terra? Onde os personagens gritam uns com os outros, se amam e se odeiam, não aturam certos defeitos – mas, acima de tudo, se aceitam, porque é assim que as coisas funcionam? Que tem de tão errado com essa visão do mundo amoroso?

Provavelmente a pergunta certa é o que tem de errado com a geração atual. Uma geração que acha que traições são coisas a ser tomadas de ânimo leve, que tenta provar que fotos (comprovadas pelos interessados como sendo verdadeiras) são montagens, que vampiros são sensíveis e chifrudos. Parece que a criançada faltou no dia da distribuição de cérebro.

Enfim, enfim.